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a complexidade das falácias

a complexidade das falácias

noites de lisboa

No Sábado passado estava uma noite sublime. Por momentos relembrei as noites de Verão, quando as esplanadas se encontram cheias de gente e cujas conversas se centram em temas tão leves como os festivais, as idas à praia e festas. Os cabelos voam sob a brisa quente, o vento passa pelas camisolas frescas e os pés pisam o chão através do vans calçados. 

Fui ter com a V. e com o R no Sábado à noite. Não tinha grandes expectativas. Seria uma noite igual a todas as outras as que têm sido nos últimos meses, ou seja, entediante. Já há muito que deixámos de nos saber divertir. Sabíamos fazê-lo melhor que ninguém quando tínhamos 14, 15 ou 16 anos mas agora que começamos a sair da adolescência parece que eles só entendem por diversão a noite, copos ou o Bairro Alto. E foi precisamente isso que fizemos. À meia-noite eles tiveram a ideia luminosa de nos irmos meter no Bairro Alto. Como eu já estava farta de estar por aqui decidi aceitar o plano na esperança de fugir a esta rotina.

Estava cheio. Está quase sempre, mas para ser sincera as ruas estavam lotadas e era quase impossível andar com os próprios pés no chão. As luzes, o calor e a música permitem sentir toda a atmosfera de festa que paira no ar. Apetecia-me dançar, rir e sorrir. Lisboa tem este encanto.

No entanto, começo a ficar saturada das piadas ordinárias ou dos toques alheios no meio da multidão. Eu sei que sempre foi assim mas não consigo de me deixar de sentir repugnada por certos comportamentos a que assisto na noite Lisboeta. Estou mais que habituada ao clima de "engate" nestas saídas mas acho excessivo que homens de cinquenta anos tenham a ousadia de se meterem com miúdas de dezoito ou dezanove anos. Claro que tenho histórias giras sobre noites em Lisboa. Conversas com bêbados singulares cheios de vontade de falar sobre o sentido da vida ou de filosofias sobre relações, rapazes simpáticos e cheios de sentido de humor ou raparigas que davam belas comediantes. Mas apesar disto há sempre muita decadência. Não sou ninguém para ditar moralismos. Só acho que a nossa geração vive de excessos e toda a gente sabe que tudo o que é demais não é saudável.

Tenho saudades de ver amores a surgirem nestas noites. Tomei conhecimento de alguns casos de namoros de anos que começaram numa noite de Santo António em Lisboa por exemplo. Falo de amores inocentes. Da troca de olhares discretos à distância e uma conversa tímida impulsionada pelo copo de vodka que se bebeu à cinco minutos atrás. Não falo de casos de uma noite porque esses não me interessam para nada. Tudo isto leva-me a concluir de que já não há amores como os antigos.

coisas da vida

Hoje entrei no metro, abstraída nos meus pensamentos e a ouvir música como é habitual. Uma vez que os lugares estavam todos ocupados decidi encostar-me aos bancos. Ao meu lado estava um rapaz no qual eu reparei assim que entrei.

Era bonito e tinha um ar misterioso e intelectual. Ele estava a ler. Eu como sou bastante observadora, quando vejo alguém a ler fico sempre com uma relativa curiosidade de saber que livro se trata (não confundir com aquelas pessoas que estão ao lado feitas psicóticas a ler tudo o que o vizinho do lado escreve ou lê!). Estava a ler algo relacionado com Poirot, uma personagem dos livros da Agatha Christie, reconheci eu. Ele ia completamente absorvido pela leitura até que reparou que eu estava a ler de esguelha. Ups, apanhada. Houve ali uma troca de olhares constrangedora até que ele encostou o ombro dele no meu, quase num gesto de querer que eu tivesse acesso á leitura dele também. Ele estava tão próximo de mim que até me senti constrangida uma vez que não o conhecia de lado nenhum e ele estava ali ao pé de mim como se fossemos conhecidos á dez anos sob uma atmosfera estranha e intimista. 

Depois fechou o livro, olhou pelo canto do olho para mim e saiu na estação dele.

 

Fiquei com vontade de conhecer aquele desconhecido. Pequenos pormenores chamaram a minha atenção. Para mim não há coisa mais atraente num homem do que o gosto pela leitura, paixão pela literatura. 

Mas quantas vezes é que se trocam olhares com desconhecidos que nos chamam á atenção no meio da multidão nos mais variados lugares e quando cada um segue o seu caminho ficamos com a sensação que gostávamos de ter ido beber um café com essa pessoa? Não me digam que é só a mim que isto me acontece senão fico a achar que é o facto de estar solteira que me está a tornar um ser deveras descompensado. 

 

Bem-haja, Mia. 

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